segunda-feira, 18 de junho de 2018

Pecuarista de Lorena é pioneira na exportação de bezerros para Turquia

Texto e fotos: Hyanne Patricia

De assessora em multinacionais à fazendeira e primeira criadora do Vale do Paraíba a exportar bezerros vivos para a Turquia, esta é a realidade de Ellen Marina, de 71 anos, proprietária da fazenda Boa Esperança, em Lorena. Na primeira transação, no início de abril, foram 90 cabeças de bezerros machos Angus exportadas. 

“Eu não sou a exportadora, eu entrego para uma ‘trading’ [empresa especializada em exportação] e depois da quarentena os bezerros vão embora naqueles navios que embarcam em Santos”, explica a criadora.

Os turcos fecharam um contrato de 10 anos para importação de carne e são, hoje, os maiores compradores de gado vivo do Brasil. Os animais enviados para lá devem atender critérios rigorosos de qualidade e de raça. “Eles só querem comprar bezerro bom, diferenciado, de cruzamento industrial, com 200 a 300 quilos, e pedem muito o Angus por causa da marmorização da carne”, explica. 

Futuro
Após a exportação, em abril, sobraram alguns Angus e a maioria fêmeas Nelore, as matrizes utilizadas na fazenda. “Os turcos só levam machos. No meu rebanho, esse ano, foi 55% fêmea e 45% macho, aí guardei mais de 100 fêmeas que serão inseminadas. As vazias, após a primeira parição, vamos engordar para o mercado interno”. 


Para 2019, Ellen prospecta exportar outras 250 cabeças. A criadora, que faz parte da Aprocorte (Associação dos Criadores do Gado de Corte), conta que descobriu esse canal depois de muita pesquisa e com auxílio de conhecidos no Mato Grosso. “Até então eles [os turcos] compravam do Pará, Mato Grosso, Goiás, Rio Grande do Sul e um pouco em São Paulo”.

Quando adquiriu a fazenda de 134 alqueires, em 1984, a criadora investiu na produção de leite. Sem obter o retorno esperado, chegou a tentar o gado de corte, mas foi no cruzamento industrial que viu seu nome se tornar referência entre os criadores da região. “Eu fui uma das primeiras a fazer cruzamento industrial e comecei logo da maneira certa, porque eu cruzei o Simental com Nelore. A gente levava em leilões e foi assim que fizemos nome, a partir de 1995”.

Aposta na IATF 
Dona Ellen se diz antenada às tendências e conta que foi graças à essa percepção que atualmente investe em IATF (Inseminação Artificial em Tempo Fixo) de Nelore com Angus. “Eu ia muito em feiras de gado e percebi que a tendência era o cruzamento industrial”, conta. 

As vacas do rebanho são inseminadas anualmente em novembro para parirem em agosto. “Essas que parirem, com bezerro ao pé, em novembro, vão receber o protocolo, que é a primeira etapa do procedimento. Depois de oito/dez dias o veterinário volta aqui na fazenda para inseminar e depois de mais 30 dias são feitos exames de ultrassom para ver se enxertaram”, explica a produtora.

A IATF não é 100% eficaz. Seguindo o esquema de cruzamento industrial comum, Ellen mantém dois touros para repasse, que entram em ação para cobrir as vacas vazias, as chamadas “tardias”, que irão parir em meados de fevereiro. “A gente usa o Brangus, raça abrasileirada, tem 60% Nelore e 40% Angus. Ele cobre as vacas vazias e no final de julho vamos tirá-lo para o protocolo de agosto”. 

Esses cuidados foram sendo aprendidos no dia a dia da fazenda e pelas orientações de um veterinário especializado, responsável pelo procedimento. Segundo dona Ellen, foram cerca de três anos para adaptar a fazenda para IATF. Foram necessárias algumas reformas, mas a principal mudança reflete no manejo do gado. 


O pasto é dividido em 17 piquetes para fazer separação dos animais e rotação para correção do solo. “E mesmo rotacionando não dá o tempo certo de 45 dias no mínimo sem bater. Vou manejando, pois tenho muito gado e a gente precisa dar pelo menos uns três meses de descanso para o solo, então eu arrendei uma pequena propriedade de 25 alqueires aqui perto para dar uma escoada”, explica.

Para alimentar tanto gado, a propriedade possui 29 hectares de plantação de capim, cortados de quatro em quatro meses. Ellen conta que são usadas cerca de 1.800 toneladas de silagem por ano, além de uma alimentação diferenciada para engorda de vacas, novilhas e bezerros. “As capineiras estão produzindo bem, conforme as análises e correções do solo, e enquanto elas estão prenhas a gente faz um proteinado especial para elas”. 

Em relação a custos, a produtora diz que não sentiu grandes impactos. “IATF não é mais caro. Já trabalhamos somente com touros e perdemos muitos por briga entre eles mesmos, mesmo separados, porque não tem cerca para eles. Além disso, um touro comprovado é caro. Na IATF, por vaca, o custo fica em torno de R$102,00 não é um absurdo se você vai receber depois uma média de R$1.500 por bezerro”.

Já é o terceiro ano consecutivo que Ellen investe em IATF. “Eu não saio mais do IATF, você começa a acompanhar o que há de mais moderno dentro da pecuária, você organiza a fazenda. Além disso, tenho toda orientação e assistência necessária para uma fazenda do meu porte. Então fazer dois IATF no ano e trabalhar com touro no repasse, eu recomendo”, destaca.

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